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Eletropostos

Como um eletroposto gera receita: sessões, ticket médio e o custo que não para

A receita de um ponto de recarga não vem do preço por quilowatt-hora, vem do número de sessões multiplicado pelo ticket médio. Este guia abre a conta linha por linha, explica os três modelos de cobrança usados no Brasil e mostra por que boa parte do custo continua correndo mesmo quando nenhum veículo se conecta.

Como um eletroposto gera receita: sessões, ticket médio e o custo que não para
Equipe DSG Capital·Análise de Investimentos31 de julho de 202613 min de leitura
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Resumo

A receita de um ponto de recarga não vem do preço por quilowatt-hora, vem do número de sessões multiplicado pelo ticket médio. Este guia abre a conta linha por linha, explica os três modelos de cobrança usados no Brasil e mostra por que boa parte do custo continua correndo mesmo quando nenhum veículo se conecta.

A pergunta que antecede qualquer decisão sobre um ponto de recarga é simples de formular e mal respondida na maior parte do material que circula sobre o setor: de onde exatamente vem o dinheiro. A resposta usual para na primeira camada, que é a venda de energia ao motorista. Essa camada existe, mas ela não descreve a operação.

Receita de eletroposto é o produto de duas variáveis, número de sessões e valor médio por sessão, e nenhuma das duas é controlada pelo preço anunciado no aplicativo. A primeira depende de localização, disponibilidade e comportamento do motorista. A segunda depende de quanta energia o veículo aceita e de qual modelo de cobrança está em vigor no ponto.

Do outro lado da conta há uma assimetria que muda o desenho do negócio. Parte relevante do custo de um ponto de recarga corre independentemente de existir sessão. Energia consumida é custo variável, mas conexão, espaço, conectividade e manutenção não são. É essa assimetria, e não a tarifa cobrada, que separa uma operação saudável de uma operação que consome caixa.

O preço da recarga é livre, e isso muda tudo

Antes de abrir a conta, é preciso fixar um ponto regulatório que muita gente descreve errado.

A recarga pública de veículos elétricos no Brasil é atividade aberta e de preço livre. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica, é permitida a qualquer interessado a realização de atividades de recarga de veículos elétricos, inclusive para fins de exploração comercial com preços livremente negociados. A agência descreve a própria escolha como uma regulamentação mínima, com o objetivo de evitar interferências indesejáveis na operação da rede e de garantir que as tarifas dos demais consumidores não sejam impactadas pelo serviço de recarga.

Há um detalhe de atualização que raramente aparece nos textos do setor. A primeira norma sobre o tema foi a Resolução Normativa 819, de 2018, muito citada até hoje como se estivesse em vigor. Ela foi revogada, e as disposições sobre instalação de pontos de recarga passaram a integrar o Capítulo V da Resolução Normativa 1.000, de 2021, que consolida as regras de prestação do serviço público de distribuição.

Duas consequências práticas decorrem disso.

A primeira é que não existe tarifa regulada de recarga. O preço ao motorista é definido pelo operador, o que significa que a receita por sessão é uma decisão comercial sujeita à concorrência local, e não um parâmetro dado por norma.

A segunda é que a distribuidora local também pode instalar estações de recarga em sua área de atuação, a seu critério. Ou seja, o concorrente potencial de um ponto privado inclui a própria empresa que vende a energia consumida por ele.

As três formas de cobrar uma sessão

Com preço livre, o operador escolhe não apenas quanto cobrar, mas o que medir. Essa escolha define quem paga mais e o que a operação protege.

Três modelos de cobrança de uma sessão de recargaA cobrança por energia entregue mede o quilowatt-hora transferido ao veículo e liga receita a custo de energia. A cobrança por tempo de conexão mede os minutos de ocupação do conector e protege o valor do espaço. O modelo híbrido combina energia entregue com taxa após o fim da recarga e protege a rotatividade do ponto.Por energia entregueO QUE É MEDIDOQuilowatt-hora efetivamentetransferido ao veículoO QUE O MODELO PROTEGEA relação direta entre custode energia e receitaEFEITO NO PONTOVeículo lento ocupa a vagaPor tempo de conexãoO QUE É MEDIDOMinutos em que o conectorpermanece ocupadoO QUE O MODELO PROTEGEO valor do espaço e dadisponibilidade da vagaEFEITO NO PONTORecarga lenta custa maisModelo híbridoO QUE É MEDIDOEnergia entregue mais taxaapós o fim da recargaO QUE O MODELO PROTEGEA rotatividade do ponto e areceita por vagaEFEITO NO PONTODesestimula veículo parado
Os três modelos convivem no mercado brasileiro. A escolha entre eles é uma decisão de operação, porque define o que a receita acompanha: o custo da energia, o valor do espaço ou a rotatividade da vaga.

Cobrança por energia entregue. O motorista paga pelos quilowatt-hora transferidos ao veículo. É o modelo mais intuitivo e o que mantém receita e custo de energia amarrados na mesma unidade. O problema aparece quando o veículo aceita pouca potência: ele ocupa a vaga por muito tempo e gera pouca receita, porque o que se cobra é energia, não permanência.

Cobrança por tempo de conexão. O motorista paga pelos minutos em que o conector fica ocupado. Esse modelo protege exatamente o que o anterior desprotege, que é o valor da vaga. Em compensação, penaliza veículos com recarga mais lenta, que pagam mais pela mesma quantidade de energia, e exige comunicação clara para não gerar atrito com o usuário.

Modelo híbrido. Cobra a energia entregue e acrescenta uma taxa de permanência depois que a recarga termina. É a resposta usual ao veículo que fica estacionado no ponto após completar a carga, situação que reduz a rotatividade e trava a receita do dia.

Não existe modelo correto em abstrato. Existe adequação entre modelo de cobrança, tipo de carregador e comportamento do motorista naquele endereço. Carregadores de corrente contínua em rodovia e carregadores de corrente alternada em estacionamento de longa permanência não pedem a mesma régua.

A conta que descreve a receita

A leitura de receita de um ponto de recarga cabe em uma decomposição simples, e a utilidade dela está em mostrar sobre qual variável o operador tem controle real.

Decomposição da receita mensal de um ponto de recargaA receita mensal do ponto é o produto do número de sessões pelo ticket médio por sessão. O número de sessões decorre dos pontos disponíveis, das horas de operação e da taxa de ocupação. O ticket médio decorre da energia entregue por sessão e do preço praticado. A figura descreve o método de leitura e não apresenta valores.Receita mensal do ponto×Sessões por mêsTicket médio por sessãoPontosdisponíveisHoras deoperaçãoTaxa deocupaçãoEnergia entreguepor sessãoPreço praticadona sessãoMétodo de leitura da operação. A figura não apresenta valores, projeções ou expectativa de resultado.
A taxa de ocupação está destacada porque é a única variável do lado esquerdo que responde a decisões do operador depois que o ponto já está instalado.

A receita mensal de um ponto é o número de sessões multiplicado pelo ticket médio de cada sessão. Essa é a conta inteira, e ela vale tanto para um único carregador quanto para uma rede.

O lado das sessões se abre em três componentes. Quantos pontos de conexão existem no local, quantas horas por dia o local está acessível e qual a taxa de ocupação desses pontos nessas horas. Os dois primeiros são definidos na instalação e praticamente não mudam depois. O terceiro é o que a operação disputa todos os dias.

O lado do ticket se abre em dois componentes. Quanta energia o veículo aceita em uma sessão, que depende da bateria e da potência do carregador, e o preço praticado, que é livre mas limitado pela concorrência no raio de deslocamento do motorista.

Duas observações importam mais do que a fórmula.

A primeira é que o operador tem pouca influência sobre a energia média por sessão. Ela é definida pela frota que circula naquela região e pela tecnologia do equipamento instalado, não por decisão comercial.

A segunda é que aumentar preço tem efeito limitado e ambíguo. Como o preço é livre e há alternativa próxima em boa parte dos mercados adensados, elevação de preço tende a reduzir sessões. O ganho em ticket pode ser anulado pela perda em ocupação.

Por isso a variável que concentra atenção na análise de um ponto não é o preço, é a ocupação.

Onde a receita encontra o custo

A estrutura de custo de um eletroposto tem uma característica que a distingue de boa parte do comércio: ela não desaparece quando o movimento cai.

Custos fixos e custos variáveis de um ponto de recargaCorrem mesmo sem nenhuma sessão: conexão e demanda contratada, cessão do espaço, conectividade e software de gestão, manutenção preventiva, depreciação do equipamento e seguro. Só existem quando há sessão: energia consumida, tributos sobre a energia, meio de pagamento e suporte ao usuário.Correm mesmo sem nenhuma sessãoConexão e demanda contratadaCessão do espaçoConectividade e software de gestãoManutenção preventivaDepreciação do equipamentoSeguro e vigilância do ativoSó existem quando há sessãoEnergia consumida na recargaTributos incidentes sobre a energiaMeio de pagamentoSuporte ao usuário na sessãoA coluna da esquerda é a que define onível mínimo de ocupação da operação.
A assimetria entre as duas colunas é o que torna a ociosidade o risco central dessa classe. O custo da coluna esquerda corre igual em um mês cheio e em um mês vazio.

Do lado variável estão a energia consumida na recarga, os tributos que incidem sobre ela, o custo do meio de pagamento e o atendimento ao usuário durante a sessão. Esses itens acompanham o movimento e, em uma operação bem desenhada, guardam proporção estável com a receita.

Do lado fixo estão a conexão elétrica e a demanda contratada junto à distribuidora, a contrapartida paga ao proprietário do espaço, a conectividade e o software que gerencia a rede, a manutenção preventiva, a depreciação do equipamento e a proteção patrimonial do ativo. Nenhum desses itens depende de um veículo ter se conectado naquele mês.

O custo de conexão merece um parágrafo próprio, porque é o mais mal compreendido. Um carregador de alta potência exige capacidade elétrica disponível no ponto, e essa capacidade é contratada. O valor contratado é devido pela disponibilidade, não pelo consumo efetivo. Um ponto superdimensionado em relação à demanda real carrega custo fixo elevado desde o primeiro dia, e nenhum ajuste de preço por quilowatt-hora resolve esse problema.

O insumo tem preço variável, o preço ao motorista não

Há uma segunda assimetria, menos discutida, entre o custo da energia e o preço cobrado na ponta.

O custo da energia no Brasil varia mês a mês. O sistema de bandeiras tarifárias, implantado em 2015, sinaliza aos consumidores os custos reais da geração por meio das cores verde, amarela e vermelha, e a ANEEL divulga mensalmente a bandeira que vigorará no mês seguinte, conforme o calendário de acionamento publicado para 2026. Somam-se a isso os reajustes anuais de cada distribuidora e a existência de modalidades tarifárias e postos tarifários distintos, descritos pela própria agência em modalidades tarifárias.

O preço ao motorista, por outro lado, tende a ser rígido. Reprecificar todo mês gera atrito com o usuário, desorganiza a comparação entre pontos e costuma custar sessões.

O resultado é que a margem da operação absorve a variação do insumo. Em meses de custo de geração mais alto, a mesma sessão produz margem menor. Esse é um ponto que raramente aparece em material comercial e que precisa estar explícito em qualquer avaliação séria da classe.

As outras linhas de receita

A venda de energia ao motorista de passagem é a linha principal, mas não é a única. Cada linha adicional tem contrapartida, e ignorar a contrapartida é o erro clássico.

Contrato com o estabelecimento que cede o espaço. O ponto costuma ser instalado em área de terceiro, como shopping, hotel, supermercado ou condomínio. O arranjo pode ser pagamento fixo pelo espaço, participação sobre a receita das sessões ou uma combinação. Contrato com participação reduz custo fixo e melhora a resiliência em meses fracos, mas divide o resultado dos meses fortes.

Recarga de frotas com contrato. Empresas de logística, locadoras e operadores de aplicativo têm demanda previsível e horários definidos, muitas vezes fora do pico de uso público. Esse tipo de contrato eleva a ocupação em janelas que ficariam ociosas. A contrapartida usual é preço menor por quilowatt-hora e dependência de um cliente único.

Interoperabilidade entre redes. Quando o motorista de um aplicativo consegue usar o ponto de outra rede, o ponto recebe sessões que não vieram da sua própria base. Amplia o alcance comercial e transfere parte da receita ao intermediário.

Assinatura ou plano de uso. Modelo em que o usuário paga valor recorrente por condições diferenciadas. Estabiliza a previsão de sessões e, em troca, reduz o valor médio capturado por sessão.

Receita indireta do estabelecimento. Para o dono do espaço, o carregador aumenta o tempo de permanência e o fluxo de visitantes. Essa receita não pertence ao operador do ponto, mas explica por que muitos estabelecimentos aceitam ceder área e, em alguns casos, arcar com parte da obra elétrica.

Por que a taxa de ocupação decide o resultado

Reunindo os dois lados da conta, o caminho do dinheiro fica visível.

Caminho do valor pago pelo motorista até a margem da operaçãoO preço pago pela sessão é reduzido pelo custo da energia e pelos tributos, depois pelo custo de conexão e demanda contratada, depois pelos custos de operação e manutenção, restando a margem operacional. A figura descreve a ordem das deduções e não apresenta valores.ORDEM DAS DEDUÇÕES EM UMA SESSÃO DE RECARGAPreço pagopela sessãoMenos energiae tributosMenos conexãoe demandaMenos operaçãoe manutençãoMargemoperacionalDescrição do encadeamento de custos. Não representa valores, proporções, projeção ou expectativa de resultado.
A terceira caixa é a que não se ajusta ao movimento. Quando a ocupação cai, ela continua com o mesmo tamanho e comprime tudo o que vem depois.

A consequência disso é objetiva. Um ponto de recarga tem um nível mínimo de ocupação abaixo do qual a operação não se paga, e esse nível é determinado pela coluna de custos fixos, não pelo preço cobrado.

Dois pontos com o mesmo equipamento, o mesmo modelo de cobrança e o mesmo preço podem ter resultados opostos apenas por diferença de ocupação. É por isso que a análise de um projeto de recarga é, antes de tudo, uma análise de endereço, de fluxo qualificado e de contrato de espaço, e só depois uma análise de precificação.

Vale sublinhar uma implicação pouco intuitiva. Aumentar potência não resolve baixa ocupação. Um equipamento mais potente eleva o custo de conexão e a demanda contratada, ou seja, aumenta justamente a parcela fixa que já estava sem cobertura. Em local de baixo fluxo, potência maior piora o problema.

O que a conta não mostra

A decomposição descreve a mecânica da receita. Ela não elimina os riscos da classe, e alguns deles atuam exatamente sobre as variáveis da conta.

Ociosidade. É o risco central e o único que ataca receita e custo ao mesmo tempo, porque reduz sessões enquanto a parcela fixa segue correndo.

Disponibilidade do equipamento. Um carregador fora de operação não gera sessão, e o efeito não termina quando ele volta a funcionar. O motorista que encontrou o ponto indisponível tende a não repetir a tentativa.

Concorrência local. Como o preço é livre, a entrada de um ponto próximo pode reduzir simultaneamente o número de sessões e o preço praticável.

Custo do insumo e regulação tarifária. As regras de conexão, a estrutura tarifária e a tributação da energia seguem em evolução. Mudanças nesses parâmetros atingem a margem sem qualquer alteração na operação.

Contrato de cessão do espaço. Prazo curto, renovação incerta ou revisão de contrapartida podem inviabilizar um ponto que estava funcionando bem.

Execução. Recarga é operação contínua, com manutenção, atendimento, cobrança e prestação de contas. Esse risco não é eliminável, apenas gerenciável.

Iliquidez. É capital comprometido em infraestrutura física, sem resgate, sem mercado secundário organizado e sem preço de tela.

Quem está avaliando uma oferta dessa classe encontra o roteiro de leitura crítica em sinais de alerta em uma oferta de investimento. A visão geral da infraestrutura, dos tipos de carregador e do descompasso entre frota e rede está no guia sobre como funciona um eletroposto e o que ele exige de quem investe, e o enquadramento da categoria dentro de uma carteira está em o que são investimentos alternativos.

Considerações finais

A receita de um eletroposto não é um preço, é uma composição. Sessões multiplicadas por ticket médio, de um lado, e uma estrutura de custo que só em parte acompanha o movimento, do outro.

O preço da recarga é livre no Brasil, conforme a regulamentação mínima adotada pela ANEEL e hoje consolidada no Capítulo V da Resolução Normativa 1.000/2021. Essa liberdade é uma vantagem e um limite ao mesmo tempo: permite ajustar a política comercial ao endereço, e ao mesmo tempo expõe a operação à concorrência de quem estiver no mesmo raio de deslocamento, inclusive da própria distribuidora.

O que sobra de prático é uma ordem de perguntas. Quantas sessões esse endereço sustenta, quanta energia a frota que circula ali aceita por sessão, qual parcela do custo continua correndo em um mês fraco e qual contrato garante o espaço pelo prazo da operação. Projeções de receita construídas sem essas quatro respostas são exercícios de planilha, não análise.

A metodologia que a DSG Capital aplica a operações de recarga está descrita na página da tese de eletropostos.


Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e informativa. Não constitui oferta, recomendação ou consultoria de investimento. Investimentos alternativos envolvem risco, inclusive de perda do capital, e são ilíquidos. Rentabilidade passada não garante resultado futuro. Avalie sua situação e consulte um profissional habilitado antes de investir.

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